JollyRoger 80´s para as Massas

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sábado, 24 de dezembro de 2011

Indústria da Moda e do Sexo Anoréxico

A grande maioria das atrizes da Hollywood contemporânea são desprovidas de certo sex appeal, muito devido ao padrão estético anoréxico ostentado pelas mesmas. Dizem que gosto não se discute, mas apesar dos estereótipos, parece que mulheres realmente bonitas no cinema não estão em Hollywood.

Observo com curiosidade, pra variar, esse novo padrão de beleza imposto pelos poderosos da Indústria Cultural. Nos anos 1950 as modelos e atrizes apresentavam corpos esculturais vide Marylin Monroe, Rita Hayworth, Jane Mansfield. Ou pin ups deliciosas como Bettie Page. O objetivo primordial sempre foi chamar atenção pela beleza das mulheres.



Mas se formos analisar como elas são representadas no pornô ou como as personagens femininas são ilustradas nas histórias em quadrinhos, perceberemos que o são de maneira voluptuosa e provocante. O que não acontece atualmente na dita 7° arte.

Qual então seria o critério? Se um tipo de padrão é usado para alavancar vendas de quadrinhos tentando fisgar o público adolescente e esse mesmo padrão dita as normas no mercado erótico/pornô fazendo com que faturem milhões por ano, não seria "natural" que as atrizes do cinema seguissem essa linha?



Por que as atrizes parecem cada vez mais magras e cansadas?

Roger Marques_ Eu também não acho que o papel das mulheres/atrizes deva se restringir ao apelo sexual. (...) "Como nos tempos atuais proporcionar algo mais que sex appeal parece estar fora das intenções dos artistas no geral, foquei o teor da análise no campo sexual"(...) Mas temos que concordar que mais do que nunca tudo gira em torno de sexo! No Brasil então... O curioso é que quanto mais se vende sexo mais se desenvolvem instrumentos de repressão.



E acho que apelo sexual não está limitado à anatomia. Inteligência e personalidade são potentes afrodisíacos. Mas minha intenção no texto foi analisar os padrões estéticos de beleza e sua variação nas diferentes mídias.

Marcela Fernandes_ Eu não sei por que essa é uma questão que tira tanto o seu sono. É o que pode se chamar de um “falso problema”. Na verdade, não vejo mistério algum nisso (veja bem, eu disse que EU não vejo mistério algum, pelo menos não desse jeito que você parece ver). 

Parece tão óbvio (eu disse “parece”) que a indústria do cinema (Hollywood) está tão acopladamente fundida à indústria de moda... “normal” que as atrizes não sejam mulheres reais e sim de uma magreza imposta por essas indústrias. Elas têm de ser - como diz minha avó - “cabides”.



Cinema hollywoodiano vende, em última instância, moda. E moda como sendo o resultado do que chamam de “tendência” (histórico-filosófica, que seja) – e tudo isso não é uma escolha aleatória, vão dizer os especialistas nessa área. Várias coisas estão em jogo quando um padrão de beleza é o ‘boom’ do momento.



Bem, filme pornô não me parece vinculado à indústria da moda (= glamour, passarelas e etc.), não mesmo! A magreza anoréxica não tem razão de ser ali... minaria o propósito em jogo



É fascinante a abordagem feita por Deleuze ao explicar a forma como o desejo é “podado” pela psicanálise. Lá pelas tantas, ele fala da anorexia como sendo uma espécie de artifício (um protesto) do corpo em relação à mecânica que lhe é imposta, uma manobra de “fuga”, de não-assujeitamento a regras, a normas e etc (= política).

A expressão “corpo sem órgãos” é bem interessante, conhecidíssima no pensamento de Deleuze, e traz à discussão exatamente o tema da anorexia.

"(...) O anoréxico compõe para si um corpo sem órgão com vazios e cheios. Alternância de enchimentos e de esvaziamentos: as devorações anoréxicas, as absorções de bebidas gasosas (...) Não se trata de uma recusa do corpo, trata-se de uma recusa do organismo, de uma recusa do que o organismo faz o corpo sofrer. 

De modo algum regressão, e sim involução, corpo involuído. O vazio anoréxico não tem nada a ver com uma falta, é, ao contrário, uma maneira de escapar à determinação orgânica da falta e da fome, à hora mecânica da refeição. Há todo um plano de composição do anoréxico, para fazer um corpo anorgânico (...)

A anorexia é uma política, uma micro-política: escapar às normas do consumo para não ser objeto de consumo. É um protesto feminino, de uma mulher que quer ter um funcionamento de corpo, e não apenas funções orgânicas e sociais que a entreguem à dependência (...) O anoréxico é um apaixonado: ele vive de várias maneiras a traição ou o duplo desvio (...)

 Em suma, a anorexia é uma história de política: ser o involuído do organismo, da família ou de uma sociedade de consumo. Que a máquina não seja um mecanismo, que o corpo não seja um organismo, é sempre nesse ponto que desejo agencia.”

Roger Marques _ Não concordo que essa questão possa ser chamada de "falso problema". Entendo que a indústria cinematográfica esteja vinculada à da moda e que o objetivo antes de criar arte seja criar lucro. Pelo menos da parte dos financiadores das indústrias e não dos artistas necessariamente. Nas passarelas internacionais parece que sempre foi uma regra que as Modelos fossem desprovidas de alma e corpo.



O curioso é esse padrão ter se estendido para a vitrine do cinema, na medida em que, o modelo anoréxico não é o mais atraente para os consumidores imagéticos de mulheres.



Nada ali é feito de maneira aleatória, como você mesma disse, mas tanto o padrão anoréxico das modelos de passarela e cinema, como também o das siliconadas curvilíneas do pornô são padrões exagerados, irreais e criados industrialmente. 

Cada um seguindo suas tendências. No entanto, eu acredito que qualquer consumidor(a) de profissionais midiáticas ache uma mulher com 60 kg mais atraente que uma de 20 kg.

E quando as atrizes que estão imersas nesse padrão de magreza interpretam super-heroínas ou personagens com atrativo sexual exacerbado o resultado pode ser constrangedor. Consegue imaginar Jennifer Aniston interpretando a Vampirella?



E Kirsten Dunst está muito longe do visual da Mary Jane das Hqs.



Resumindo, o ponto central é: No cinema eles querem vender sexo. Um sexo pausterizado, ok! No cinema pornô é sexo, exacerbado, exagerado e cheio de supostas idealizações e fetiches. O mundo inteiro consome pornografia. Talvez esse mercado fature mais que o cinema "sério". 

Não seria mais lucrativo e não corresponderia mais as expectativas consumistas do público se as atrizes (assim como acontece no Brasil e Europa) tivessem um aspecto mais "saudável"?



Não precisariam ter os corpos maravilhosos das musas do passado, mas...

E sobre o que Deleuze disse sobre a anorexia ser um ato político de não sujeitamente à regras... é questionável. Filosofa tão poeticamente que quase dá pra aceitar, mas não concordo! Vejo também a auto-flagelação do anoréxico não como uma negação das normas, mas sim como a aceitação total aos padrões.



E quando Deleuze fala da anorexia como sendo um ato político, como sendo um protesto feminino ele confere à doença um caráter ideológico. Enquanto que um doente pode ser apenas uma pessoa sem noção das consequências de sua talvez alienação e baixa auto-estima.

Rogério Marques é Mestre em História Social e Arquivista.
Marcela Fernandes é Mestra em Filosofia.

Leia também:

8 comentários:

  1. A referência do livro de Deleuze:

    DELEUZE, Gilles. "Psicanálise morta analise". In.: Diálogos. São Paulo: Editora Escuta, 1998.

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  2. Roger, eu hoje estou com a minha faculdade de História trancada e a anorexia sempre foi um assunto intrigante para mim. Quero fazer minha pós sobre a História da anorexia, porque acredito em suma que é um protesto das mulheres ao longo dos séculos. Ser esquelética quer dizer: Eu não quero fazer parte dos padrões saudáveis para não reproduzir, para não me casar, para não ser um objeto sexual dos homens e não ter que me enquadrar na escravidão sexual. Li muito sobre a anorexia e cheguei a algumas conclusões. Infelizmente o espaço de comentário é pouco para tamanhos exemplos que posso lhe dar para sustentar não somente as afirmações acimas como outras.
    Parabéns pela abordagem do texto sem ofender as pessoas que sofrem de auto distorção visual.

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    1. Faça mais comentários. Dê mais exemplos e escreva sobre suas ideias e conclusões a respeito do assunto.

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  3. Obrigado por seu comentário Noiva Cadáver. Bom saber que as motivações que me levaram a escrever sobre o tema ficaram claros. Escrevo bastante textos e trabalhos com a intenção de atacar e até mesmo "ofender" algumas pessoas, mas como você muito bem percebeu não foi esse o caso, ao tratar da anorexia e demais distúrbios.

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  4. Olá. Dei uma conferida em diversas postagens aqui e gostei bastante de seu espaço. Estou te seguindo. Tb tenho um blog. Se o conteúdo lhe interessar, sinta-se em casa.
    Abraços,
    Kleiton
    kleitongoncalves.blogspot.com.br

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    1. Valeu Kleiton! Também estou seguindo seu blog e o recomendarei para quem gosta de histórias em quadrinhos.
      Abraços!

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