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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Teatro: "Coro dos Maus Alunos"


Texto de Maria Fernanda Vomero na Revista Época.


Perigo: alunos pensantes!

Em "Coro dos Maus Alunos", da Cia. Arthur-Arnaldo, um grupo de estudantes acompanha o julgamento de um carismático professor de Filosofia que só queria lhes ensinar a pensar – e a viver sem grilhões

MARIA FERNANDA VOMERO
02/10/2013 20h12 





Os jovens atores da Cia. Arthur-Arnaldo encenam "Coro dos Maus Alunos", sob direção de Tuna Serzedello. (Foto: Divulgação)



Antes de entrarmos no espaço cênico Ademar Guerra, localizado no andar inferior do Centro Cultural São Paulo, encontramos os seis estudantes no pátio, como se tivessem acabado de sair da escola. Comentam o desfecho de algo muito grave; nenhum deles imaginava que a situação pudesse terminar de modo tão dramático. Ali, misturados ao público, são apenas adolescentes assustados diante de um acontecimento no qual estão diretamente implicados, mas cuja compreensão total, por ora, lhes escapa.
Coro dos Maus Alunos, montagem mais recente da Cia. Arthur-Arnaldo traz um elenco jovem, homogêneo e bastante afiado, que merece aplausos pela interpretação equilibrada. Não há exageros nem cacoetes na atuação de Carú Lima, Fábio Rhoden, Júlia Novaes, Luísa Taborda, Taiguara Chagas e Vagner Valério. O texto, do inventivo português Tiago Rodrigues (da cia. Mundo Perfeito), adaptado por Tuna Serzedello e Soledad Yunge, diretores da companhia, é bastante engenhoso e joga o tempo todo com a ideia de coro, do coletivo, sempre apoiado no ponto de vista dos alunos. Não há protagonismo entre os atores – e mais: na reconstituição dos fatos, eles se revezam nos papéis adultos, o que confere ritmo e frescor à encenação. O cenário, composto por carteiras escolares de papelão, revela-se bastante versátil e retroprojetores são usados para a iluminação. São acertadas as escolhas do diretor Tuna Serzedello: as composições de cena funcionam muito bem.
Um grupo de alunos do ensino médio, pouco a pouco, se vê cativado por um velho professor de filosofia. Suas aulas não são entediantes como as demais; além disso, a cada dia ele oferece uma provocação diferente, despertando neles interesse pelo estudo, pela reflexão e pelo questionamento. O professor tampouco segue o programa oficial; prefere estimular o senso crítico dos meninos, a consciência sobre as próprias escolhas e o exercício da liberdade. Obviamente essas novidades repercutem no comportamento dos estudantes, que, empolgados com as descobertas feitas nas aulas de filosofia, se tornam mais criativos e rebeldes, destoando do restante do alunado.
O diretor da escola e os pais se preocupam com a transformação dos filhos, antes apáticos ou desatentos, mas cumpridores das regras. Tornaram-se maus alunos, uma vez que passaram a desafiar gradativamente o sistema escolar. São punidos; mas a retaliação maior está guardada ao professor, que incentivou o comportamento tido como negativo daqueles adolescentes. Acusado de confundir seus alunos, ele terá de enfrentar um julgamento, do qual participarão autoridades da educação, além da direção do colégio e dos pais.
A cena final é bastante potente – antes, revemos o diálogo fragmentado do início, à luz do amadurecimento e do desabrochar daqueles "maus" alunos. Quem são, de fato, os maus alunos? Aqueles que ousam questionar o sistema? E outras indagações vêm a seguir: por que a escola é tão refratária a mudanças? Por que as diferenças e as divergências são abafadas? Permite-se que um professor realmente ensine além das apostilas padronizadas? Por que uma mentalidade obsoleta e autoritária ainda persiste, mesmo que às vezes disfarçada com vernizes "modernos"?
Há um abismo entre os discursos sobre a importância social e política da educação e as práticas escolares, pelo menos em boa parte das escolas brasileiras, da rede pública e privada. O pior de tudo é que a sociedade quase sempre é conivente, apostando em paliativos e disfarces para evitar confrontar a questão. Com isso, seguimos com a fábrica de bolinhos, com o desencanto e com as bombas de gás lacrimogêneo que têm servido para punir os maus alunos.
CORO DOS MAUS ALUNOS. Até 10/10, qua. e qui. 20h. Gênero: drama. Duração: 65 min. Classificação: 14 anos. Centro Cultural São Paulo: Rua Vergueiro, 1000, Metrô Vergueiro, tel. 3397-4002. Ingressos: R$ 20. Crédito e débito: não aceita. Onde comprar: na bilheteria, que abre duas horas antes.

Em "Coro dos Maus Alunos", os estudantes, empolgados com as aulas de filosofia, passam a desafiar as regras da escola (Foto: Divulgação)


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